domingo, 15 de junho de 2014

Desenlace





Cada pessoa traz consigo um mundo e vive as pertinências deste até o dia em que resolve abrir as portas para o mundo real. Não creio ser com consciência, pois a consciência verdadeira só os loucos a possuem, mas vejo essa abertura de portas como um chamamento para uma realidade improfícua e dissimulada.

Acho que me traí e só agora percebo que caí na armadilha dos anormais. Eu era tão mais eu, tinha tanto mais eu, me bastava feliz. Não percebi a fronteira que ultrapassei e nem quando o fiz ou como o fiz.

Emudecida, sentei na cama e senti a mesma sensação dos tempos antigos, mas sem lágrimas e cortes. Só agora dei conta de onde cheguei. Acho que me traí sem perceber. Estava já deixando as pertinências alheias misturarem-se aos meus pensamentos, quase me perdi de mim.

Tempos atrás eu fechava a porta com chave e mergulhava em mim, voando nas asas quebradas de meus demônios interiores, autista por opção. Ali era eu de verdade, somente eu. Não fazia questão de pessoas, amores alheios, palavras e atenções. Como deixei a indiferença ir embora é uma incógnita. Nem sei quando passei para a realidade inconsciente, para a vida construída.

As pessoas deixam de se perceber em algum momento de uma existência, deixam as paradas por causa das reuniões. Quem volta? Poucos voltam, voltam e se permitem ou são permitidos.

Tenho a sensação de ter estado em coma por anos. Coisa estranha essa de olhar meus feitos e desconhecer as motivações. Como consertar tudo isso? Não sei mais. Sei somente que voltei, voltei pra mim.



Leila Andrade

segunda-feira, 9 de junho de 2014



“Que o teu corpo não seja a primeira cova do teu esqueleto.” 

JEAN GIRAUDOUX

sexta-feira, 21 de março de 2014

Salvação



Cartas prontas, roupa escolhida, ligações feitas. Luz acesa, quarto organizado, pensamentos bagunçados, talhos iniciados.

Os olhos refletiam o vazio da alma. Sempre pensou que estava fadada a um destino podre, à inutilidade de uma vida marcada pela sensualidade e pela malícia. Não se sentia assim na infância, mas viu-se como um corpo vazio entre corpos de mulheres e homens durante o pouco tempo de adulta.

Lágrimas escorrendo, sangue maculando o vestido, memória rasgando-se em clarões e raios. Um grito, a dor, um arrependimento, o vazio da morte solitária.

As mãos tremiam a frieza do coração aflito. Lembrou-se da tia que ousou ter o mesmo fim que ela. Pensou nas frases que sempre ouviu das amantes. Chorou.

Pulsos abertos, lençol manchado, silêncio. A partida trazia a certeza de que ela sempre esteve fadada ao luxo e ao lixo alheios, como uma boneca de louça em mãos impuras. Lembrou-se da mãe, pediu perdão a sua amada, que ligou no último instante ,  fechou os olhos, bebeu as lágrimas da morte.


Leila Andrade

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Protótipos











As conveniências da vida nos moldam, torturam, emolduram. Talvez sejamos exteriormente a encarnação do que gostaríamos de ser, protótipos da perfeição sonhada, como bonecos manipulados pelo eu verdadeiro; bonecos que fingem não sentir a dor das palavras alheias, as decepções da insegurança sentimental, o cansaço da hostilidade de viver.

Falsa perfeição! Basta olhar mais de perto para ver os lapsos acontecerem . Não há um homem sequer que consiga manter-se inabalável dentro da armadura, pois todos somos passíveis à submersão da verdadeira essência. A carcaça de humanóide nem sempre suporta as instabilidades da existência e rompe-se turgidamente para fundir-se ao meio concentrado das pressões.

Fazemos escolhas como seres perfeitos, aliás, nosso protótipo escolhe o que melhor convém. Entretanto, a dor é sentida pela alma, é a essência do verdadeiro ser humano que transita entre a tristeza e a alegria continuamente. Como as consequências nunca falham -eis a verdade da qual não esqueço-, o segredo da boa sobrevivência é saber decidir, posto que as oportunidades são imprescidíveis, o estar aqui é único, traiçoeiro e tão efêmero quanto o vento.

Leila Andrade






 

Insignificâncias de luxúria




Doce e inútil é o caminho dos seus laços,
das fitas de um ser estranho aos modos comuns
mais avesso às perfeições do que os ventos de temporais,
relicário de tortuosos traços.


Efervescente e prazeroso é o fel de suas veias,
das profícuas investidas libidinais
incrustadas nos fios mais íntimos,
caleidoscópicos de incógnitas alheias.


Infernal e sensual é sensação de suas tateadoras,
das arestas de um ser comum aos modos estranhos
mais semelhante às igualdades do que as brisas matinais,
espelho de belezas traidoras.


Leila Andrade




Foto: www.coletivocafécomgelo.blogspot.com

Leite derramado



"Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar."
Chico Buarque, Leite Derramado.


É a saudade que me faz repetir na memória os melhores anos da minha vida, os anos em que estive viva.    



sábado, 1 de setembro de 2012

Fim







"As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes."
Leila Miccolis




O processo de desconstrução do que deveria existir até a foice da morte nos alcançar ou a nossa própria foice – a minha, talvez –  nos atingir, me atingir, atordoa impiedosamente o cenário-perfeito-de-dois-anos-e-meio de atuação. Vão-se sorrisos, gemidos, amigos, laços familiares, objetos, cachorro, planos, promessas, nós, você, eu. Vão-se cobranças, noites taciturnas, lágrimas, reclamações, obrigações, frustrações físicas e emocionais.

Sem cortes, lágrimas, show, gritos; com inúteis pedidos de perdão.  A tua perfeição como pessoa não deve se estragar com minha podridão de ser humano normal. É essa sensação ridícula de poderia-ter-dado-certo que me estraçalha a alma e sangra as mãos. Tenho gastado os dias me atrelando à procura pela casa - o meu novo mundo-, aos amigos que confortam, às cobranças da universidade, às obrigações do trabalho, a tudo que substitua o que eu nunca pensei em desfazer e quis que durasse. Restou o que sempre fui, mas negava.

Talvez tenha sido esta por quem você nunca se apaixonou - a verdadeira - que tenha estragado a relação. Assumo a parte que me cabe nessa separação. Fico comigo e minha individualidade respeitada a qualquer custo; fico com as decepções que cansei de ver mainha dizer e fiz questão de pôr à prova. Levo os discos do Chico, o livro da Elis, as fotos, alguns objetos, sensações, sons, parte de nós. Vou com meus talhos e o mundo que estou criando só comigo e só pra mim, como deveria ter sido desde que nasci.


Leila Andrade